terça-feira, dezembro 14

Tormenta





Agora te vai tormenta medonha.
Levas contigo ao ralo tuas águas de ópio.
O meu amor escondido em jarros e vasos
Nem teus mil olhos, Agramon,
Foram capazes de perscrustar.
Agrisalhaste minhas melenas,
Tornaste meu peito quase tísico,
Revelaste-me as possibilidades de minha morte,
Mas ao preparar meu esquife foste avaro.
A madeira era ruim
E os cravos que usaste eram curtos demais para cadear as juntas.

Achaste que seria assim tão simples sepultar-me?
Acreditaste que os círculos onde te é permitido entrar
Bastariam (?), mentecapto.
Pensaste que teus silvos de diabo de segunda ordem
Seriam o suficientes para estourar meus tímpanos
E desnortear meu labirinto?

Tua ilusão do medo açoitou-me até a ferrugem do sangue,
Isso é bem verdade.
Mas subestimaste-me.
Subo melhor do que desço,
E aqui em cima, também somos cólera.
Fiz-me gente com a lestada – o minuano em frio -
Eu também sou o inferno, seu bosta.

Queres saber de quantas balas precisas para prostrar-me?
Conto-te:
Convoque teus irmãos das ordens inferiores.
Juntos, ergam a maior metalurgia do mundo interior.
Ressuscitem os forjadores esquecidos nas catacumbas,
E usem o fogo e o enxofre ao ponto do próprio derretimento.
Aí então, acelerem os átomos,
Os façam colidir.
Da matéria escura que brotar
Bordem os seus projéteis.
Todavia, saibas tu, Agramon,
Que sou capaz de engolí-los.
E da azia que me queimará o estômago,
Dou conta com um sal de frutas.

quarta-feira, dezembro 8

A vida útil, apesar do tempo - Cartas I - O Riso

... Teus sorrisos desataram-se e tornaram-se gargalhadas. Aqueles risos tão grandes tinham algo de pantagruélico. Foram me devorando primeiro com a boca, depois com os cílios, o queixo, as falanges.


E tu vinhas a mim nas contrações de tuas costelas. Escondia a face entre as mãos. Espiava do verdume de teus olhos. O riso subido no tom trouxe a variação do olhar, e um não sei o quê de confiável, tenho a impressão, lhe parecia, me parece, aparecia em mim.

Levei-lhe as frutas que te trazem para o dia... e depois das horas inclementes em que o sol castiga, e depois de ele se esconder para o descanso tardinheiro, servi a mesa. A noite, com tua vontade, entrar em teu corpo para depois me deixar cuidar. Tuas mãos em meus pés cansados, em minhas vértebras corcundas, na minha nuca em nódulos.

Manha de gato, dengo de guri.

Um mundo sereno em que mil exércitos com seus mosquetões, adagas, banhonetas, canhões, homens em fúria, não seriam capazes de subjugar.
A alquimia, a estrada para o gral, o algodão bailando sobre os campos.

Foi depois de desprendido o teu sorriso, que os dia passaram a ser mais leves. Foi depois do teu olhar leve de sorrir que o teu corpo começou a serpentear... que me olhaste pela primeira vez nos olhos enquanto me tinhas.

Agora navego na saudade de teus olhos gateados na luz do céu marinho. Nos teus cabelos avermelhados de arrebol. Nos teus quadris que se movem na procura da entrega. Navego pela união dos corpos e pela vontade do espírito. Se fosse um pássaro ligeiro, uma flecha rápida, iria até a onde estás para velar teu sono, afagar teus sonhos, e cantar ao nascer de mais um dia. Como não possuo asas, tão pouco o impulso dos arcos, me resta pensar em ti na esperança que minha alma passeie próxima a tua.

Que eu seja parte do hálito dos anjos que te sopram o fim de mais um ano.


Eles não perdem a velha mania –
Giram, giram, giram
Por sobre os paralelepípedos cobertos de fungos.
Elas não lêem
nem mesmo as orelhas
dos pobres livros envoltos em ácaros.
Estou transbordando.
E minha tesão aumenta
Toda vez que ouço tua voz,
E sinto teu cheiro,
E miro teus olhos
Na estagnação lépida
Das esquinas pontiagudas de meu porta-retratos.


Continua




segunda-feira, novembro 29

A vida útil, apesar do tempo - Cartas I - O Encontro



A palavra no rosto de qualquer superfície dura.
Sobrevive nem que seja por pirraça, teima - e empresta vida ao tempo.
 Diferente de quando borboleteia ao vento misturando-se no farfalhar do caminho perdendo força,quando não o sentido. Letrinhas apartando-se do conjunto.
Mas se martelada em rocha sólida, pintadana luz da manhã,  torna-se irmã do tempo.

Eu de volta, de novo em alfabetos tortos, querendo chegar a ti.
Quanto aos detalhes que perdi ao longo dos dias, e que agora o embaço das horas turva, pouco importa. Não é o que vivemos, mas sim o que sentimos ter vivido.
Não há como fugir do que escurece o entendimento.
É o incerto – a bebedeira e a lucidez de quem afunda o pé no chão e caminha.
Agora que estamos distantes, embora goste de pensar que nunca estiveste tão perto, mastigo a lembrança do suor depois dos meses de negaceio. Me atirei em tua ravina como um lobo uivando além da cordilheira, fazendo ecoar a lascívia dos  desejos sem dar-me conta que os paredões nevados, pela altitude, e pelos quereres, são suscetíveis a avalanches.
Atarantado com o rugido do deslocamento criado por minha impaciência, ainda que assustado, indócil... rodando, bramindo, tranformado em catavento, me agarrei a delicadeza e procurei teus olhos.
Escarafunchei em meu peito embrutecido as fábulas que vivi e fui.  Me desarmaste com a descoberta de que o rude em mim está muito próximo do delicado.
Nunca havia ficado tão em pelo.
Fui teu assim.
Apontaste o caminho me devolvendo os canteiros que achava estarem secos, perdidos, tomados por urtigas, emaranhados num cipoal sombrio, sem fim. Foste o mateiro que mira a porta do João-de-Barro, protegendo-me do vento.
Foste meu pála, meu poncho, o cobertor em minhas orelhas, a lã aquecendo meus pés.
Te ergueste da linha do areial.
Teus olhos foram minha bússola, teu sorriso o mapa reconduzindo-me as indiossincrasias, teus lábios, a vela rósea apontando o curso.
Teus dentes de pérola despertaram a leveza que havia ficado perdida.
Me devolveste o olfato, o tato, o sabor.
Alarmaste os sentidos, a vontade de ser melhor.
Eu quis te dar a minha vida.

Hoje não é sábado, é uma manhã de quarta.
Sonolenta, corpo quase espreguiçado, olhos de retorno ao mundo.
Beijei teu ventre na aurora.
Junto do armário, horas antes, quando te toquei e corri as léguas do teu pescoço, e tuas pálpebras cerraram-se, e tuas espáduas arqueadas estimularam meus lábios, quis parar o tempo.
Mas o mundo gira, empurra os ponteiros para adiante.

Nada para, estanca, freia.
As águas seguem o seu peso na gravidade.
Correm pelo leito, por vezes inundam os campos.
Fazem das planícies os charcos que servem de repouso a vaidade do firmamento.
E que bom que não para. Que bom que não estanca.
Só assim pude ouvir: “quem bom que você está aqui de novo”.
E depois, dentro: “que saudades senti.”
E a noite foi surrupiando as horas, levando nossas mãos ao entrelaço dos dedos na madrugada.
Senti a tez da noite aveludada em teu corpo molhado.
Depois dormir na quentura de tuas pernas.
Olha o sol...
Bom dia, Clarinha.


Continua.....



quinta-feira, agosto 13

Alcunhas

Apelido, para ser assim, apelido mesmo, de verdade, tem que colar rápido e com naturalidade, feito ranho em azulejo. Precisa varrer do mapa o nome de batismo. Apelido bom só devolve ao dono o nome que mamãe tanto fez gosto quando o sujeito bate as botas, esticas as canelas, inspira.
Meu irmão, por exemplo, é Pinto. Antes de o chamarmos pelo nome, alguém disse: “Parece um pintinho amarelinho.” Pronto, estava lá o Pinto. Para voltar a ser chamado por Flavio foi morar lá onde o Danado perdeu as calças. Ainda assim, quando está de férias e alguém lá dos infernos liga, a gente, involuntariamente é claro, entrega a rapadura:
- Alô.
- Oi...
- Queres falar com quem?
- Com o Flavio.
- Pai ou filho?
- Filho, eu acho.
- Ah, é com o Pinto... Momentinho. Pintô... É pra ti.

Éramos pródigos em apelidar. Os codinomes variavam conforme as características –invariavelmente as piores –, habilidades e esquisitices de cada um, somadas aos dias que se viviam.
Exemplificando: o Zulu, que na infância havia sido Péle, era Zulu porque todo mundo via a ignomínia, a merda se melhor lhes soa, do Apartheid pela TV. O Buléu era Buléu, por conta das acrobacias na bicicleta. Corajoso, é bem verdade, voava alto sempre. No ar era um espetáculo, mas na aterrissagem, feridas e ossos partidos.
O lance, é que esse negócio de apelido, quando pega, pega e já era. Justificá-lo pouco importa. Como esclarecer na estaca do condizível ser o Salada, o Salada? Existem coisas que ninguém explica. O gozado é que hoje o sujeito é chefe de cozinha em um navio de cruzeiro. Vai saber!
O caso do Pelado seguia a mesma incógnita, só que esse, apesar de continuar viajando, não embarcou em navio algum.
Outros qualificativos, porém, não tinham mistério. O Foguete era é ruivo, cabeludo e avoado. Alguém precisa fazer alusão à altura para que se entenda o caso do Tatu? Ou do Farmácia, que vivia amassando e cheirando hipofagin? Ou mesmo o do Fanho, que até poderia ter dado um nó na afronta, mas como desgraça quando dá na telha de ser desgraça não tem jeito, mesmo com toda grana e cirurgias, permanece falando pelo nariz.

Já outros apelidos são não resistem assim ao tempo, e a alguma força de vontade . O Quatorze, coitado, envelheceu, e agora vira o rosto quando gritam Quarenta. O Gordo, não acreditaríamos na época, emagreceu, ficou bonito, e agora trepa com umas magras que nem na punheta ousava comer. E o Barata, que apesar de continuar branco feito vela, acalmou as incursões pelas sarjetas. Mas isso, diga-se de passagem, muito se deve a ausência prolongada do Cure no Brasil, e da decadência do Bom Fim. Sem falar na dificuldade de hoje em dia, para quem não tem plano de saúde, de descolar umas cartelinhas tarja preta.

Não obstante, apelidos nem sempre flertam com caricaturas. Vez em quando, imergem por antítese. O Loloco foi e continua a ser o cara mais careta que conheci na vida, apesar de já ter o corpo todo pintado numa época em que só a âncora do Popeye passava batida. A mesma coisa o Aloprado - obelisco de sobriedade.

Pondo fim às reminiscências, foram tantos, que não posso seguir adiante sem incorrer no risco de tornar-me enfadonho. Para acabar só lhes peço um bocadinho de paciência e ritmo.

Em meia dúzia de fôlegos:

Aranha, Jubi, Bolo, Zoio, Laranja. Tofo, Dinho, Báro, Feice, Cenoura, Baga, Manduca, Banana.

Um respiro. Segue em frente. Logo acaba.

Prego, Escurinho,Maradona, Maneco, Magu, Nego, Seco, Colméia. Paranga, Taquara, Goiaba, Caverna, Jacão, Assassino, Tomate, Conha, Beterraba, Alemão, Pardal.

E entre tantos muitos outros... Paspalho, um abraço.

Circo - panturrilhas e olhos puxados



Impérios, senhores, lacaios, mulas, homens vencidos. Todos tropicaram nos cascalhos em busca da seda. Abro mão da luz e perscruto os traços. Tendo descobrir se vieram do frio das bétulas ou do mormaço dos bambus.
Os olhos puxados se parecem tanto quanto os redondos nossos. São mui, mui diferentes, todos eles.
Os corpos de tanta força contra a gravidade chegam ao hiato donde mora a leveza.
São elásticos... Reviram-se, dobram-se, desenroscam-se. E a gente quase estrábica já não sabe onde começa ou termina o homem. Nada de novo, se o porém fosse filosófico. Não obstante, se tratando de pele, músculo e osso, urge logo ali a obrigação do desenozar-se. Pouco importa o intricado do emaranhado. Ou a coluna se recompõe ou termina num esquife. O resto é conversa mole. Patatis, patatás, teretetés de quem mal se estica ou encolhe, não vai nem fica, encaroçando a vida quasímoda.

E as mulheres...
Que lindas, que fortes. Ancas, cada uma das laterais nas ponteiras do osso, entrosam tórax e pelve num lacete. Coxas rijas, panturrilhas filhas da rocha dura. Antebraços de ópio e descaminhos.
Tantos membros de disciplina, de borracha, de fibra, de plástica... Tudo bem torneado.
Volúpia (!), que cheiro bom tu tens.

terça-feira, maio 26

Verdes Anos


O controle da televisão era uma meleca só - a gosma da modorra do dia. O sebo entre os dedos fedia o azedume do vômito.
O corpo, pegajoso de suor ressequido, se ouriçava em um coça e coça de beirar desgraça.
Pois então, as brotoejas num inchaço beirando a inflamação, que aparece lá na TV um guri de calças de veludo molhado. A camisa e a gola enorme, endurecida no cuspe da goma, rija feito pau de lei, carimbava o tempo: setenta, na veia - e desgrudei numa puxada certeira com o indicador o escroto suado das virilhas.
Vendo o piá, feito coisa morta na ronda do mundo brincando de assombração, veio à lembrança a calça de lã que era obrigado a usar. A desgraçada, nem ainda o dia havia esquentado, já judiava o traseiro que nem urtiga peluda. Até hoje, a lembrança mais vívida de martírio e suplício, é a de viajar durante horas no banco de trás de um Opala junto com meus irmãos com a bunda em brasa, formigando feito xoxota de beata lavando cueca de pároco.
Aquela medonha era o prólogo do inferno. Nem o blusão tricotado de lã crua roçando no pescoço conseguia ser pior. As frieiras causadas pelas carpins eram fichinhas perto do flagelo daquela merda. O cu suava em bicas. Quando ia tirar a pingolinha para urinar tinha de fazer uma faxina no cabeçote, tamanha quantidade de fios enroscados no prepúcio. Era de matar. No fim do dia, finalmente livre do incômodo, o traseiro lembrava um Tolstoi em braille. A vontade era de não sentar nunca mais. Horas depois de liberto da maldita, ainda dava para sentir os minúsculos furinhos a atazanar o traseiro.
Quando então me livrei da danada, foi a vez do Bamba, cintos de náilon e calções curtos do mais puro algodão. Dor ao corpo até que não causavam, mas ao moral... Para mim que tinha, e ainda tenho, pernas compridas e canelas finas, eles eram um relho açoitando a estima. Deus, meu! Como colocar um Bamba branco em conspiração com a carpin marrom que, por sua vez, tramava com o shorts de pano contra a insegura adolescência? Não tinha jeito, a luta era inglória. Não havia para onde correr.
As coisas na época eram diferentes. Nos cabelos, por exemplo, tinha-se de dar jeito. Pouco importava se eles se recusassem peremptoriamente à doma dos ossos do pente.
Espinhas, puberdade? Defeito, sujeira, feiúra - sujeito desengonçada.
Agora, quanto mais descabelado, esfarrapado, sem combinação, melhor. Bamba é cool, e os bermudões vão até a circunferência das canelas, se esse for o caso. Hoje, ainda bem, o feio já não tem tanta certeza sobre sua feiúra. E o bonito, também não sabe bem se é tão bonito assim.
Em dias pós-modernos, tudo se disfarça, confunde-se. Enganação e talento troteiam juntos. As bússolas perderam o ímã. Ora, ora, carambolas, e isso tudo até é bom.
Não obstante, contudo, porém, todavia, porra... Índigo rasgado fica dependurado nas araras dos centros comerciais, e não nas estrepadas do uso. Qualquer aventureiro mete a mão. No tempo ido, ao menos para mim, ascender à descompostura exigia puir a alma em alguns sonetos e em uma penca de sarjetas. Fora o cacife para bancar a desconfiança que os rasgões despertavam. Se a consciência dos setenta e o desbunde dos oitenta eram melhores, não sei. Mas, me parecem mais íntegros. Desconfio de uma época em que tudo é permitido ao tempo que a vigilância aumenta. Parece-me condescendência vigiada. Tenho a impressão de que gaiolas mais claustrofóbicas suscitavam cantos mais melódicos e inquietantes. O viveiro grande em que tentam resumir agora o mundo impede os olhos de vislumbrar a tela miúda, aprisionando a passarinhada que vai gorjeando numa nota só, feliz no ledo engano de meia dúzia de timbres. Esses tempos minha guria mais velha trouxe na pauta de negociação sobre os programas de TV a serem liberados para assistir o ponto “Rebeldes”. Vetei de cara. Faço isso sempre, sumariamente, de modo a instigar argumentações. Naquele dia quase tombei perplexo:
Disse ela: “O programa é bom, ensina a ser rebelde”.

segunda-feira, abril 6

Gárgula


Palavras, assim como gente e bicho, e tudo mais que se movimenta e anda, vivem sob a cruz das castas. Algumas são campônias, outras operárias. Muitas são peões em batalha; tantas outras, políticas matreiras. Há as que ao mundo dão o movimento, enquanto outras sentenciam à estagnação. São férteis, são estéreis. São labuta, são preguiça - a vida e a definhação. E se ainda muito importa o papel que cumprem e os sentidos que todas elas alavancam, no final, ou são nobres, ou são plebeias, e ponto.
O Insólito, por exemplo, tenho certeza, é senhor de muitas almas e alqueires. Veste casaca aveludada e botas de bom couro. Com seus aneis, assenta-se sempre acima do passo da rotina.
Quando topei com ele pela primeira vez, fiquei impressionado por demais. Seu tom me deu a impressão da volatilidade. E ao descobrir que na vida nada mais faz além de encarnar o inesperado, a recusa ante a regra, salivei abobalhado.
Lua cresce, lua mingua, as melenas entordilhando, voltei ontem a me inclinar em sua reverência.
Transtornado pela prisão ventre de minha filha mais nova, resolvi entrar no google para assuntar se o leite Ninho entope ou não entope os intestinos. Achei que não ia dar em nada, “bobagem minha”, pensei. Mas como o Desespero também é de linhagem antiga e nobre, fui em frente. Ora pois, quanto assombro. Num clique estava lá eu num fórum de discussão sobre barriguinhas duras e estufadas. Mães zelosas de todos os cantos com suas dúvidas, certezas, lamentos, procurando um desentupidor para os rebentos. Uma mulherada que só vendo. Fiquei de longe, só de bico, na esperança de que alguma delas solucionasse o meu problema sem que precisasse me manifestar. Como a resposta não vinha, ofereci a todas meus cumprimentos e pesar pelos seus e fui levantando a questão:
- Alguma das senhoras sabe se o leite Ninho endurece a merda e tranca o rabisteco?
Para quê? Foi um alvoroço só. Nem tinha acabado de digitar a interrogação e o rugido ecoou:
- O senhor quer dizer endurecer o cocô? Constipar o nenê?
Como não sou bobo nem nada, entendi o puxão de orelhas, e não gostei. Afinal quem é ela para dizer como devo externar minhas aflições? Ora... Retruquei de pronto:
- É isso mesmo, minha senhora. A merdinha mole vira um monstro cagalhão prevalecido que deveria procurar alguém do tamanho dele para brigar? A senhora sabe ou não sabe, afinal, se é o leite Ninho o mandante da peripécia?
Arre, que peleia comprei. Mães indignadas congestionaram minha caixa de entrada:
- Seu grosso... Não tem vergonha de falar desse jeito?
- Tenha mais respeito, escreveu outra.
- O senhor está brincando com a desgraça alheia e, ainda por cima, de crianças, seu medonho, dedilhou mais uma.
Emputeci:
- Cacete! Oh... Pecherecada louca!?, digitei já meio enfezado.
- Tô com uma guria de seis meses que não caga têm três dias, e vocês com todo esse xingamento? Será que dá para responder se com o leite Ninho o cocozinho do bebê fica sequinho e durinho, e o coitadinho acaba entupidinho?
- Mas por que o senhor não explicou isso antes? Pricisava esse estresse todo?
- É, precisava?, emendou logo outra.
- Deve ser pai solteiro, desses independentes. No mínimo adotou achando que ia ser fácil.
- Gozado isso, né? Será que ele é....
- Senhoras! E o leite Ninho?
- Disso eu não sei, mas conheço uma receita infalível para desamarrar os intestinos.
- Eu também, atalhou uma de volta.
- Ah, mas melhor do que a minha não deve ser.
- Pois aposto que é.
- Duvido.
- Até parece...
- Parece o quê?
- Que tá se achando, a sabida.
- É pena eu não estar aí, daí ia ver só uma coisa.
- Que coisa, que coisa? Dou-te o endereço e te espero, só quero ver então....
- Senhoras... Senhoras....
- E tu não te metes, bobalhão. Vai-te embora dormir, chatonildo. Leite Ninho, leite Ninho... Parece um bebezão choramingando. Não sabes falar outra coisa?
Como a discussão foi adiante, resolvi aceitar o conselho. Desliguei o computador e peguei o rumo da cama.
Já deitado, joguei a vista perpassando o breu até o tronco mais alto do pé direito. Na forquilha, acocorado feito um Gárgula, ria o nobre Insólito, mangando de mim.