Gosto do gosto de buceta branca.
Em verdade gosto de tudo quanto é tipo de buceta.
Bucetas magras, bucetas polpudas, bucetas peludas, bucetas raspadas.
Mas me encantam mesmo as buceta claras.
Melhor ainda se os olhos
Que a acompanham forem verdes
E mudarem de tom conforme o tempo.
Se chover mais escuros, no sol clareados.
Melhor ainda se a pele
Que a veste for alva
Com as veias azuis do abdome
Subindo até o pescoço gentilmente.
Gosto do gosto de buceta branca.
Em verdade meus dois grandes amores
Têm virilhas de leite e pelos amarelos,
Às vezes, na variação das luzes, quase avermelhados.
Melhor ainda que são belas
E de olhos claros, e que as vivi.
E persegui o curso de suas veias,
Das falanges dos dedões às escondidas nos céus das bocas.
Melhor ainda que elas ainda vivem
Traçando seus caminhos, pouco importa
Se distantes dos meus. Nossas vidas
Um dia se bordaram. Muito isso me basta.
Gosto do gosto de buceta branca.
Em verdade não as escolhi,
Elas simplesmente me ganharam
Nas intersecções de seus entroncamentos.
Melhor ainda que me desejaram,
Engoliram-me enquanto os olhos
Que as acompanhavam me davam
O inusitado prazer de ser o agora e o depois.
Melhor ainda que me amaram.
Quiseram-me em suas mesas e
Em seus banhos. E vestiram seus seios rosados
Com minhas blusas sem botões.
Eu gosto mesmo é do gosto de buceta branca.
domingo, abril 3
sábado, abril 2
MUDANÇA
Minha escrivaninha de madeira boa voltou.
No tampo, pequenos ramos de flores
Pintados à mão no pinho retalhado
Nas serras do sul respiram mais uma vez.
Madame antidepressivos de boca suja devolveu.
Meus livros agora estão aos seus lugares.
Respiram no armário de madeira boa e dezesseis vidros
Que veio no mesmo frete, chacoalhando
Por conta do asfalto ruim dos cantos de cá.
Madame antidepressivos de cabeça torta deixou pegar.
Armário e mesa de escrever combinam
Com a carreta de seis bois pitangas levando
Fumo de um lugar para outro lugar, sempre mui longe,
Pintada por pictografia e tintas no couro esticado.
O lanceiro que a conduz, nunca deixei para trás.
Na parede o milongueiro de chapéu, lenço e viola,
Repousa no cobre dedilhando melodias de cordas
Gozando na cor da lenha que agora retorna.
Coisas suas irmãs, que tantas coisas já choraram.
A milonga e as melodias das distâncias, nunca ficaram para trás.
Abro as gavetas, ajeito a papelada.
Nina disse que os livros dela
Devem ficar juntos aos meus em nosso escritório,
Que segundo ela, ficou muito lindo.
Reservo lugar para as ilustrações, para as páginas, para as letras de sonhar.
Os meus espaços são também os dela,
Não há outro jeito senão repartir.
Os sonhos dela serão os meus sonhos,
E suas andanças, minha artrite e meu travar.
Que venham as épocas, os entreveros, a tolerância com alguns grandes sorrisos.
Gargalharemos... Nada nos importa -
Tempos rotos, dias anis...
O que há para saber afinal?
Nossos braços nos abraçam Nina, e estalam todas nossas costelas.
segunda-feira, março 14
Paquiderme
Abandonei cedo demais o caminho dos passarinhos
Tornei-me um paquiderme pesado e velho
Quis me travestir de poesia sem ter vivido
E ajoelhei-me diante da idéia de que só a tristeza cria
Li coisas sem entender cedo demais
Entrelacei meus dedos aos da arrogância
Quis traduzir a mim e a terra
E vendi-me ao sorriso da vaidade julgando-a ser virtude
Entreguei-me a indecência de Deus cedo demais
Flertei com demônios e infernos
Fiz do cinismo e do escárnio altar de bajulação
E tornei-me desertor de mim escondendo-me no ímpeto do ataque
Vesti os trapos do mentecapto cedo demais
Enamorei-me da lágrima do incompreendido para acreditar-me herói
Empunhei sem sangue as dores do mundo
E abandonei-me a pretensão da blasfêmia
Encarnei a obtusidade dos arautos cedo demais
Anunciei as tolices de minha gagueira
Fiz com a idiotice um tapete mal trançado
E acreditei-me o escolhido enquanto ruminava asneiras
Hoje como a poeira do mundo
E me lambo com ela
E me limpo a garganta com ela
E me clareio os olhos com ela
E me destampo os ouvidos com ela
E me descongestiono o nariz com ela
E me arrumo o tato trôpego com ela
E me cuspo o cuspi comprido
E pingente tentando falar através dela
Água-Viva
A madrugada vai alta, o céu marinho.
Canários e pardais de barrigas vazias nas galhadas atiçam o arvoredo.
Os lençóis rotos de insônia e suor seco me tiram da cama mais uma vez.
Tentei de tudo – assisti dois filmes, li cento e cinquenta páginas, tomei uma cacimba d’água, jantei duas vezes.
Fumei uma caralhada de cigarros na varanda, molhei tudo no quintal: primeiro as alamandas, as flores baldias, as orquídeas. Depois as folhagens que plantei sem saber o nome, as bromélias, as espadas de Jorge. A mangueira, o abacateiro, e até os inços que teimam em crescer a revelia do tesourão.
Nada adianta - não durmo.
Olho para as sombras na parede e em vez de patinhos, cavalinhos, girafinhas, amebas, vírus, bactérias, águas-vivas.
Provocam-me as sombras dessas coisas de uma ou poucas células tão pródigas em perpetuarem-se. Centenas de milhões de anos de incubação, de espera em bolhas quentes para então desmembrarem-se - e eis a costela de Adão viajando na explosão cambriana .
Mas foi esticarmos a coluna para começarmos a inventar bobagens e acreditarmos que o tamanho de nosso cérebro e nossas habilidades com gravetos nos catapultariam a testa de tudo que vive.
Se desperto tendo a concordar que a abstração tende a transforma-se nas culturas que bordam o homem, minha insônia me diz que ao tempo que ela nos recria também impõe a marcha ao extermínio.
No espelho, a esta hora da madrugada, meus olhos sussurram-me que quanto mais nossos códigos anabolizam e eletrificam nossos neurônios, mais diminuímos as possibilidades de sobrevivência. Segredam-me eles, mesmo embaraçados e tontos, que nossa capacidade de abstração não é o cano do fuzil, mas a culatra. E que para singrar o tempo, e isso até uma ameba sabe, precisamos abandonar as penduricarias.
Rasuramos palavras em papel ou telas iluminadas, esculpimos deuses e monstros em mármore e madeira. Pintamos a história em manchas inteligíveis, tentamos reproduzir nossos batimentos cardíacos através de caricaturas, traços tortos, retas longas, de círculos em elipse. E assim vamos pincelando desvairadamente aquarelas de fantasmas desviados no empenho do assombro de nossas próprias casas.
Imaginamos negros pernetas, caminhantes de pés virados, coisas ruins com piteira entre os dentes, cobras com cabeças em chamas, répteis que se tornam mulheres, mamíferos do rio que se vestem de homens, fêmeas que se deitam em pedras a afiar os dentes.
Não sabemos pelo que vbale respirar e mergulhamos em mitologia para sobreviver. Negamos-nos a uma vida fantástica em nome da projeção do fantástico.
Se não me engano foi Platão quem apontou o dedo para as caverninhas de águas espelhadas. E que foi Aristóteles quem externou a idéia de que pensa melhor aquele que anda.
A groselha de meus olhos não quer mais refutar a água-viva
- Tu és um caminhante ereto, me diz ela, e deves perceber a deformação de tua coluna. E ainda que isso me assuste, firmo meus olhos na vermelhidão.
Não sou Saci, Curupira, Boitatá, Caipora, Teniaguá, Boto ou Iara.
Sou só o fantasma otário que se esmera em me assombrar.
sexta-feira, fevereiro 4
Musa
Tenho fome
Minha pele seca
Meus caninos enfraquecem
A catarata acinzenta meus olhos
São os anos de inanição, meu amor
Mas ainda olho o derredor com viço
Tenho dedos rijos e hábeis
Pés que andam
E uma certeza que me basta
São os anos em que a distância aproxima
Sinto o cansaço no ranger das falanges
Minhas veias entopem
Minhas unhas se alquebram
A cabeça lateja
São os anos do açoite, do sal espumando a ferida
Mas ainda pressinto um mundo alvissareiro
As flores me inebriam
Os cheiros me entorpecem
Constelações me abraçam
São os anos de meus cílios e nariz no purgatório
O meu peso debruça-se sobre minhas vértebras
A minha descrença malsã amarga meu palato
Minha desconfiança com toda a gente bifurca minha língua
Meu cinismo deita-se em meu colo
São os anos do tropeço, do manquejar, da turbidez da obviedade, meu amor
Mas ainda percebo a minha sorte
Em minha península és musa e flutuas
Caminhas como genteLevanta-te mulher
São os anos que me pedem agora o esboço de um sorriso
quarta-feira, fevereiro 2
A Vida útil, apesar do tempo – Cartas II - Alianças
A intersecção da berinjela e da Tailândia,
Da melancia, dos feromônios,
Dos cães, de Kundera,
Dos animais na praia, do tomate seco,
Do suco de morango e laranja liquidificados juntos com Nabokov.
Como se faz (?), eu até sei, mas não conto.
A liquefação do salmão e do basset,
Da água de coco, do boxer, do pincher esquentadinho com a saudade;
Dos cabelos curtos, do beijo que não sai da boca com as flores sobre a mesa;
Dos ataques de sinceridade, das sardas, da ausência, da leveza insustentável,
Da mitologia, das abelhas, do atraso, da cadeira quebrada com o amor que não desprende.
Como se faz (?), eu até sei, mas não conto.
O laço da fechadura e da chave,
Da cana de açúcar, do telefonema longo, do cheiro de fumo com a lágrima na escada;
Da letra da música, do parágrafo estancado, do pedido de ajuda, do iogurte sem gosto,
Da Granola, do jiló, do gosto trocado nas línguas, do sorriso de dentes,
Do estrogonofe de soja, do chocolate amargo, do Neruda com o passado que não passa.
Como se faz (?), eu até sei, mas não conto.
A aliança do frio e da jaqueta emprestada,
Da girafa, da neblina sobre o lago com botas de couro bom;
Da geada, da hortência, da faca com o nome incrustado, do atraso para o almoço,
Da irmã amorosa, da sanga de água turva, do velho de chapéu com pedras enormes que retêm o calor.
Como se faz (?), eu até sei, mas não conto.
A primazia do pastel e da sopa,
De cobertores, penas, calor e pernas;
De quatro pés esfregando-se;
De dois corpos abraçados em descanso.
Como se dá (?), eu até sei, e talvez um dia, se ela deixar, eu conto.
sábado, janeiro 29
Felicidade
Eu sei sobre muitas coisas.
Que Baudelaire foi um comedor de ópio, por exemplo.
Que Neruda amava o Chile, que Henry adorava June, e que o meu vizinho é um Bambi
Sei também que basta a um homem viver um só dia para que ele tenha memórias para o resto da vida. Foi Camus quem disse isso enquanto empurrava um cara pelas ruas de Argel.
E sei ainda, que ao encarar Tolstói, nos fodemos de vez – É que os homens são incapazes de vislumbrar as manhãs de primavera, “para eles só é importante e sagrado aquilo que inventam para instrumento de mútuo engano e tortura.”
E para ferrar com tudo eu sei que nos meus bolsos ando carregando coisas demais, e entre elas, a certeza de que o que eu sei não vai mudar a vida de ninguém, muito menos a minha. E o que eu digo, não tem a menor importância, mesmo.
Acho melhor então esvazia-los, talvez todos nós devêssemos.
No que me diz respeito, tornar-me-ei um idiota.
Os idiotas não sabem que são idiotas. Conheço uma penca, e eles são quase todos felizes.
Talvez fosse melhor para nós assim.
Faríamos um cursinho para aprendermos as sendas de um suicídio bem planejado; pediríamos ao ébrio para tornar-se o mestre; imploraríamos ao ignoto que elevasse além das colinas a sua gagueira de períodos prontos e premissas inseridas por lobotomia.
Viveríamos sob a égide da estupidez, mas também do seu bom senso. Sim, e o que é que tem? Minimamente seríamos menos tristes e dormiríamos mais e melhor, apesar da saliva azeda e da fedentina na fronha.
É claro que existem outras soluções para vivermos mais seguros, resolutos de nossa significância, importância e grandeza. Mas nenhuma garante a leveza da idiotice, além de serem complicadas. E como bem sabemos, costumamos desistir quando as coisas começam a complicar-se, só não admitimos. Preferimos acreditar que os caminhos do subterfúgio são traduções de nossa sapiência.
Mas vejam bem, chegar ao nirvana da idiotice, para alguns, pode não ser coisa tão fácil. Tornar-se um bobalhão exige ponderação, opções, astúcia, conclusões, e um sistema em constante evolução que iniba ponderações, opções, astúcia e conclusões.
É imperativo também que se varra a memória – um grilo falante - para uma vala tão funda onde nem os porcos sintam-se a vontade para chafurdar.
Sem memória, sem o cheiro de nossas fezes, tudo fica mais fácil.
Difícil?
Ora, pois, não desanimem tão rápido, tenho cá a solução: bolinhas.
As bolinhas nos alijam da tristeza, da dor, da responsabilidade. E quem não chora de verdade, quem não fornica com o doído e não se lambuza com a própria merda, dificilmente pensa. E não pensar é condição primeira para quem quer tornar-se um idiota.
É claro que existem contra-indicações, e elas são óbvias: a quem não chora não é dada as variações da luz do dia, portanto da percepção, ainda que fugas, do belo.
Como todo bom abobado não sofreremos. No entanto nunca, por nem um clarão sequer, nos será dada à certeza, ainda que ligeira, de comunhão com o mundo de verdade, da beleza, do que vale a pena, por fim.
Mas se chegarmos ao nosso intento não saberemos disso, não é mesmo?
É... Bolinhas são legais. Com elas poderemos fingir, fingir, fingir...
Mas olhe, lá....É preciso tomá-las todo dia, e com o passar do tempo, sempre em doses maiores. Do contrário a abstinência nos jogará em um limbo perigoso. Um choque de realidade poderia ser fatal. Ele pode esquentar a tal ponto a gelatina que terá se tornado o nosso cérebro, que ela esvair-se-á pelos ouvidos até que os nossos crânios enrugarem como uma ameixa seca.
Mas nós também não nos daremos conta disso, não é mesmo?
Mas e tu, continuas aí a ler. Deus meu...Eu já disse que o que eu sei e digo não têm a menor importância. Não desperdiça o teu tempo aí pensando. Deixa de ser besta. Esvazia a tua cabeça e teus bolsos.
Engula uma bolinha.
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