quinta-feira, junho 9

Joaninha



Não fique triste, apenas chore.
As lágrimas desintoxicarão o mundo
E o sorriso virá como bom império.

Virá como as anáguas dançam com o vento,
Como celofane colorido rodopiando já solto do arame
Em noite estrelada de São João.

Virá branco como nascem os primeiros dentes de uma criança,
Macio feito à fruta rupestre que viaja
No bico de um passarinho para nova e boa terra.

Virá desprendido do ontem
Como uma seta, livre da retenção da besta,
Corta o ar sem importar-se com o alvo.

Não fique triste, apenas chore.
As lágrimas purificarão o mundo
E o sorriso assentar-se-á como bom tempo.

Assentar-se-á como o musgo cobre a rocha fria
E aveluda as quinas de pontas e retalhos
Cegando o fio do corte.

Assentar-se-á como a joaninha de bolinhas pretas
Repousa no lustro da folha da pitangueira
Zunindo nas manhãs cálidas de primavera.

Assentar-se-á como se assenta uma boa avó
Na cadeira de balanço na vigília dos netos
Com o brilho sereno de quem bem já desentrançou a vida.

Não fique triste, apenas chore.
E depois fique risonha até aquelas tuas marquinhas que lembram parênteses,
Cada qual do seu lado esticar-se, abrigando o teu sorriso.

quarta-feira, junho 8

Ressurreição


Ouvi dizer que alguns bons amigos andam dizendo que estou diferente,
Mas eu acho que só estou de retorno.
Saindo das ravinas de águas mau cheirosas,
Deixando os guinchos das hordas baixas para trás.

Os mares andaram turbulentos e espumados. Infindáveis monstros de sal marinho se sucederam a abalroar a minha nave. Uns tinham olhos e narizes enormes, outros, couro e escamas de serra. Alguns tinham presas tão longas que poderiam triturar rochas e montanhas. Tinham tentáculos, caudas de rebenque, garras e esporões do tamanho de arcos.

A terra andou deserta, seca e erodida. No horizonte nem miragem se avolumava.
A planície se alongava num alaranjado turvo exalando um mormaço pestilento.
Os lábios deram lugar às feridas, a testa as bandagens, as orelhas e nuca a carne morta.
Os olhos eram pus, a pele um derretimento - o corpo, todo uma carcaça.

Ouvi dizer que estou diferente,
Mas eu acho que só estou de retorno.
Saindo do covil das almas mortas,
Deixando os guinchos das hordas baixas para trás.

Medusas, Minotauros, Hidras, Krakens... Senhores do inferno.
Derrotados, viciados, ladrões, assassinos, putas...Cobradores de impostos.
Bruxas, demônios, leprosos, mercenários... Vendedores de relíquias.
Escuridão, azia, vômito, aneurismas... Zeladores de incongruências.

Casas mal vividas, salas repartidas, quartos mofados, camas vazias.
Plagas desertas, córregos estanques, folhas secas, capim queimado.
Praça sem coreto, chafarizes oxidados, bancos apodrecidos, gangorras trincadas.
Alianças equivocadas, ouro de mentira, filha feita com o imprestável.

Ouvi dizer que alguns bons amigos andam dizendo que estou diferente,
Mas eu acho que só estou de retorno.
Saindo das sendas do mau feitiço,
Deixando os relinchos das hordas baixas para trás.

terça-feira, junho 7

Aurora


O vento sul bate desde ontem à noite arrebentando com as castanheiras.
O doido fez um rebuliço danado à madrugada inteira:
Arrancou roupas do varal, embolou as nuvens,
Derrubou latas, jogou os baldes longe.
Fez graça com a bacia do molho dos panos de prato que
Rodou feito carrossel pelo pátio.
Mas trouxe por fim na manhã, o sol para a janela.
Precisava de tanta algazarra, o Malazarte?
Tem granola, suco de soja de laranja. Pão, iogurte, frutas, manteiga nova e queijo.
A mesa é pequena, mas a gente cabe nela, os farelos é que se entendam com o chão.

Perdi muito tempo com gente que fala demais ser ter nada a dizer.

Coloquei as tuas meias, não achei nada na gaveta e nem lá fora.
Ficou bom, mas tem um negócio rosa nelas... Não atrapalha ou incomoda.
Agora já dá para caminhar, além do mais as cadelas estão indóceis no portão.
Na volta tira as tuas coisas do chão,
Coloca aquele monte de xampus e cremes no banheiro.
Abre espaço do lado de lá do armário,
Tá sobrando um monte de cabide.
Vê se pendura às coisas.
Eu e a Nina (?)... A gente vai gostar.

Passei muito tempo com gente que fala demais sem ter nada a dizer.

Tira o teu carro, o meu ficou no Jacir e na Marilza, foste tu quem nos trouxeste.
A gente passa na farmácia compra manteiga de cacau
E depois almoça Tilápia com gostinho de limão e de terra.
E depois que almoçarmos a gente volta para casa
Para cairmos de novo na cama. Com esse vento encanando
É bom colocar lençol, manta e edredom.
Vai ficar quentinho com a gente lá embaixo.

Muito tempo...

O dia vai se deitando devagar, mais amarelado do que de costume.
No cômodo ao lado tem um monte de cobertas
Sobre a cama, e sob elas, um sono de pupa.
Pupa, pupa, pupa...
Antes de acordá-la molho os xaxins e alamandas.
Depois paro na porta do quarto e a vejo com as ágatas entre os seios.
Não tem jeito, amanhã é segunda.
Pega, toma, me abraça...
Leva um Neruda, ao menos.

sexta-feira, junho 3

Branca


Quinta - passa das vinte uma.
Quase em casa... O cheiro dela está lá.
Ficou da noite passada, ficou de noites atrás.

Conto isso para ela pelas teclas apertadas do celular
E ela responde e diz que o gosto de minha boca está com ela.
Ficou da noite passada, ficou de noites atrás.

Posso ver tua ponta de pés catapultando o teu corpo
Um pouco mais para o alto - sentir tua boca tocando a minha.
Posso ver teus olhos sorridos com jeito de emaconhados.

Tu passaste o dia procurando anomalias, possibilidades de acidentes.
Fazendo relatórios imensos sobre buracos, pó de ferro, capacetes e ausências de luvas.
Passei o dia preocupado com os cabos e a transmissão simultânea.

Passei à tarde com o teu sorriso róseo,
Com o gosto do caldo de aipim esverdeado pela couve.
Passaste à hora depois do almoço e das planilhas, sonolenta.

Mas a fábrica não pegou fogo, afinal.
Nenhum infeliz teve a sorte de acabar o dia decepado.
A transmissão também deu certo, foi tudo bem... Todos estão satisfeitos - até amanhã.

Teu carro está com pneus novos, ora essa!
Tu fizeste as unhas correndo e saíste apressada.
Eu fiz a barba e achei um perfume velho para passar no rosto.

O placar está por quanto?
Quantos dias sem acidentes?
Há quanto o gelo das barrigas não trazia medo e faceirice?

Há quanto tempo não ríamos por qualquer
Bobagem até a dor exercitar os abdomens?
Já nem poderíamos nos lembrar... E nem devemos, Catharina.

De nossa esquina se estende uma rua, e logo adiante uma avenida.
E depois da avenida, se estica uma estrada,
E pela estrada, dormitam os desvios, as vicinais, a luz e a brita.

Por ela quebram-se noites intermináveis.
Os passados vividos, sofridos, alquebrados, corrompidos.
Desfazem-se as tristezas - cristaliza-se o sal.

E da noite quer nascer o dia.
E de o vivido, erguer-se um andaime.
E do sal, pontear o gosto, de novo... Catharina....

Tá bom...tá bom!
Se tu dizes... Vou tentar dormir com esse cara, Deus,
Ainda que prefira repousar contigo.

Achei teu brinco...

sexta-feira, maio 27

Catharina


Conheci uma guria...

É bem bacana ela.
É bem bonita, assim falando mesmo de verdade.
Mas a gente anda só, do jeito dela lá ela, e cá eu do meu jeito,
Permitindo por frestas algumas quantas espiadelas.
Querendo saber um poquito más um sobre o outro,
Anunciando-nos em gotas, um e outro em suas falas.

É saliente esta guria.
É bem luzidia ela, e senhora do seu bom cheiro.
Daquele cheiro que dispensa perfumes em frascos,
Daquele cheiro que ninguém imita,
Que suscita imaginação, faro e palato.

É bem bacana ela.
É bem bonita, assim falando mesmo de verdade.
Mas a gente anda só, do jeito dela lá ela, e cá eu do meu jeito,
Equilibrando nas linhas das palmas das mãos improváveis bússolas.
Querendo saber um poquito más um sobre o outro,
Revelando-nos devagar, um e outro em suas arcas.

É ereta esta guria.
É bem alinhavada ela, e dona de seu brilho.
Daquele brilho que dispensa abajur e lâmpada,
Daquele brilho que só se propaga se for por ela,
Que suscita agulhas, carretéis, pequenas sombras em novelos.

É bem bacana ela.
É bem bonita, assim falando mesmo de verdade.
Mas a gente anda só, do jeito dela lá ela, e cá eu do meu jeito,
Atiçando os pontos alaranjados no carvão ainda quase todo preto.
Querendo saber um poquito más um sobre o outro,
Assoprando-nos com cuidado, um e outro em seus hálitos.

É clara esta guria.
É bem acastanhada ela, e segura de sua cor.
Daquela cor que pinta os olhos,
Daquela cor que borra e expande a aura,
Que suscita a mistura das tintas sobre cavaletes e telas.

É bem bacana ela.
É bem bonita, assim falando mesmo de verdade.
Mas a gente anda só, do jeito dela lá ela, e cá eu do meu jeito,
Cutucando os pés, cotovelos, braços e emendas.
Querendo saber um poquito más um sobre o outro,
Sentindo-nos por rótulas que se raspam ou encaixam, um e outro em seus membros.

É esverdeada esta guria.
É bem torneada ela, e dona de seu contorno.
Daquele contorno que é traço, mas também é mancha,
Daquele contorno que alinha, mas também entorta,
Que suscita o oblíquo, círculos, intersecções e alamedas.

É gateada esta guria.
É bem um sussurro ela no andar das unhas dos dedos dela.
Daquelas unhas que bem quero continuar a vê-las,
Daquelas unhas que bem quero sentir percorrendo a noite,
Que suscita as costas a pequenas fissuras, arranhões meio afobados.

Conheci uma guria...

Esfíncter



Ando numa merda desgraçada. Daquela merda que cheira feito cu em cancro.
Carro velho quebradiço, calças surradas, cuecas sem elástico.
Taxas de luz e água sempre atrasadas. Tem mês que quando aponto na esquina já miro de longe a caixa de luz para ver se o pontinho vermelho continua piscando. Se pisca, respiro aliviado, já sei que vou acender as lâmpadas e tomar banho quente.
Do contrário, velas e ducha fria. Tropeços e impropérios.
E vós sabeis, ou não, que quando a bosta chega à tamanha grandeza, a vida torna-se uma fossa mal cavada fermentando um caldo grosso que respinga feito um vulcãozinho raso na planície, fumegando pequenas tragédias cotidianas.

Quando a coisa chega a esse ponto tudo vira susto.
Se tilintar o telefone, tu pulas.
Se a cachorrada empreender arranque no quintal, tu pulas.
Se um galho arranhar a janela, tu pulas.
Se um fusca estourar um peido na redução brusca das marchas, tu pulas, mais ainda.
Mesmo que tu não tenhas nascido de susto e que, portanto, tu não sejas por natureza assustado, tu pularás, creias nisso.

Engraçado é que já houve uma época em que eu associava essa condição fecal ao uma espécie de romantismo, esperando dela o útero da musa.
Engraçado, e muitos tapas em minha cara, é que nessa época eu não escrevia nada, ou escrevia um monte de besteiras. Tantas como agora.

É fácil ser romântico quando as coisas não efervescem ou fedem ao sol.
É fácil quando as coisas continuam te permitindo o sono.
Desejar o esterco para que ele seja gatilho de inspiração é uma coisa.
Já ele esmagado por entre o comprimento dos dedos (?), é bem outra.

Às vezes tenho vontade de armas o tabuleiro para o copo, ou dar um pulo num centro espírita. Chamar para um colóquiozinho, Milleres, Bukoviskes, Rimbaudes, Plínios Marcos.
Seria só para ter certeza que muito antes de mim eles já haviam sacado tudo há um tempão, e por isso escreviam.
A merda fede, não digo novidade. É só, que quando ela se esparrama por certas páginas tem o dom de camuflar-se e parecer apetitosa.

Quando o copo, se o copo deslizar, eles mandar-me-iam tomar no cu, estou certo. Arremessariam- o contra a parede, enterrariam os dedos no meu rabo, e me fariam lamber a casca de feijão mal digerida que estava grudada na parede do meu reto.
- Qual merda o quê!?, gritariam
- Não basta sentir o cheiro dela, otário, é preciso comê-la. Enfie no cu os cacos do copo junto com o teu médium, vociferariam.
- Coma o que tu cagas ou cala-te, maquete de pequeno mentecapto. Engula aquilo que evacuas ou te banharás eternamente com o que espirras com a força do teu esfíncter.

É.... Eles diriam...
É que a merda anda tanta.....

terça-feira, maio 3

Páscoa


De assassinos e suicidas todos nós temos um tanto e um pouco – é o preço para quem nasce. Basta escorregarmos vagina abaixo, ou sermos arrancando com hora e dia marcados através do corte no ventre encaixados entre dedos estranhos para começarmos a fenecer, e logo depois, a matar.
A condição é idiossincrática para quem, por algum motivo, vem para o mundo.

A questão não é o assassínio em si, puxar um gatilho e pronto.
Mas sim de que assassinar num repente faz parte de nossa natureza. É telúrico, atávico, instintivo, e, sobretudo, o passo da sobrevivência..
Também não é a de cortar os pulsos ou enfiar um cano gelado na própria garganta e disparar o ferrolho. A agressão contra a própria existência é contraditória, esfola o afã de perpetuação.
Mas sim, é questão, de que gente quando vive, mata e é morta todos os dias, a pequenos bocados.

Nosso primeiro e inexorável impulso de vida, pode bem predar, pode bem liquidar quem entre contrações e fincadas lancinantes se rasga para nos jogar para o chão. Mas a quem chega envolto no sebo da placenta, muito pouco isso importa – não há ponderação ou recuo, só há o impulso. E logo em seguida mais e mais impulsos de experimentação e de lambuzar-se em um mundo que está sempre mais adiante, e de gente que nos mina a saúde e nos arremessa para umidade da cova.

Nada vem de graça, nem mesmo a graça de Deus.
Tão pouco, o equívoco da maternidade.

A pólvora seca e esquenta ao tempo que esticamos, e o nó na corda aperta a cada passo dado.
E não adianta amansar, ou termos boa vontade.
Essa é a língua fosca daqueles que engolem dedos, mãos e braços.
Gente que se apossa de brasões dissimulando, longe do sangue, brincando no tabuleiro.
Essa é a língua daqueles a quem falta bandeira e perdem-se em camalionices


A morte não é a mãe, em uma frase por telefone, matando a filha.
A morte não é mais um homem pelado em frente à filha miúda de um outro.

A morte é teu dia que começa com o café na manhã, passa pela indolência de tua tarde, e descansa na noite de tua cabeça torta, deslumbrada, incapaz de perceber o que não seja fruto e vontade de tua confusão.
A morte é a tua casa, o pátio a quem nuca te permitiu, é a tua varanda vazia de plantas.
A morte é teu pai, a tua mãe, quem te cerca e te esconde.

A morte está em teus dedos, em teu toque mudo, nas tuas calças e sapatos de revistas couché.
Ela cresce nas tuas sombras, nos teus fios de cabelos grossos, aramados, secos pelas tintas.
Ela se enreda por tuas canelas feias, coxas gordas, pentelhos encravados e joanetes.
Ela caminha nos teus olhos plúmbeos e na tua língua grossa de papilas cegas que invade sem sutileza, desprovida de graça, atarantada e ansiosa.
Ela é a gosma dependurada em teus cílios longos de canecalon.

A morte não é a tua copla fraca e sem ritmo.
Não é a poesia que tu és incapaz de sentires ou trançar.
Tão pouco tuas idéias derretidas em coisas que discursas, mas não entendes.
Não é a tua dança esquisita, desengonçada, ou o barulho que fazes ao sorver o leite.

A morte não é tua boca suja sem argumento plausível, ou tuas pílulas.
Não é teus lábios murchos a vomitar ironias ébrias de vinhos.
Vinhos que não produzes e pelos quais, muito menos, pagas a conta.
Ela é o gesto largo, desastrado de afetação.

A morte é a tua escuridão, o teu disfarce. É a tua roupa moderninha.
A morte é teu compasso de ponta incerta incapaz de vislumbrar a emenda do círculo.
A morte é tua vista sem horizonte ricocheteada na amurada de neurônios que não se falam.

De assassinos e suicidas todos nós temos assim, um tanto e muito mais de um pouco.
E na páscoa, ninguém ressuscitou.
Pois então, fodam-se os Lázaros, os Batistas, os Jesuses.
Todos os doutos.

Dois pais mortos.
Valor. Proteção. Punho. Zelo.
Existe uma guria que me acalenta o sono e repousa em meus braços.